TENDÊNCIA ZERO

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07 novembro 2006

Convergência de Mídias

Por Alexandre Chrispim, Éderson Ribeiro, Julio Todesco Longo

Jornais e rádios online, televisão digital, celulares com acesso à internet. Uma tendência que cada vez mais vem ganhando espaço no universo da informação é a convergência de mídias. É provável que num futuro próximo não seja mais possível pensar os veículos de comunicação isoladamente uns dos outros, mas somente através de uma rede multilateral de intrinsidade. Mais que isso, já é possível vislumbrar uma relação de total interdependência entre estes veículos, tornando impossível, inclusive, a distinção entre eles.
Para Nilo Peçanha, produtor de conteúdos audiovisuais para telefone celular, uma das mudanças será cultural, decorrente de um crescimento brutal na comercialização de bens simbólicos. Ainda assim, todo este comércio estará acessível na palma da mão. Ficou curioso? Acompanhe o bate-papo do profissional com o Tendência Zero:

Fale um pouco sobre o seu trabalho.
Produzimos conteúdo audiovisual para telefonia móvel. Nosso público prioritário são adolescentes e jovens. As op­erador­as começaram a oferece­­r, no ano de 2004, a possibilidade de se baixar pequenos vídeos no celular. Essa nova tecnologia atende à demanda por parte das operadoras em oferecer os chamados SVA (Serviços de Valor Agregado) aos seus assinantes. Surgiram novas siglas para expressar estes serviços: SMS (Short Message Service), GPRS (General Packet Radio Service), MMS (Multimedia Messaging Service), WAP (Wireless Application Protocol). O que ocorre na prática é a possibilidade do serviço de telefonia móvel atuar como integrador de muitos outros serviços. A conexão em portais WAP via rede GPRS, possibilita o acesso a informações de toda ordem: notícias, blogs pessoais, foto blogs, serviços de utilidade pública, conteúdo jornalístico, esotérico, adulto etc. A indústria de aparelhos cria junto com as operadoras estas novas ofertas que buscam targets altamente segmentados, e estes buscam, no consumo e acesso destes serviços, atenderem ao estilo de vida contemporâneo.
A tecnologia que permite os downloads de vídeo, passa por uma integração de tecnologias das mais distintas: o aparelho compatível com a tecnologia de rede GPRS conecta-se à internet acessando uma página que foi montada em protocolo WAP. Esta página está hospedada em um servidor, que tem carregado um software para gerenciar os conteúdos ali disponibilizados. O cliente acessa e autoriza que esses conteúdos sejam carregados na memória de seu aparelho, para posteriormente assisti-lo. Temos aqui o ciclo de consumo fechado por vários agentes tecnológicos que permitem o surgimento desta nova mídia e seus conteúdos.
Uma das barreiras mercadológicas, que precisava ser quebrada, era a do custo para o consumidor final do aparelho compatível com esses recursos, já que os aparelhos disponíveis à época eram caros, não permitindo a massificação. Foi quando a operadora Oi, em convênio com o fabricante Motorola e com a empresa japonesa de software Nancy, criaram uma solução integrada para viabilizar a oferta em grande escala. A Nancy desenvolveu um software de compressão de vídeo que permite adequar o tamanho do arquivo às possibilidades de armazenamento do aparelho Mortorola C355v, que tinha um baixo custo. A Oi ofereceu à rede GPRS os meios de promoção e os canais de venda deste novo produto, junto com a aquisição de parceiros de conteúdo para disponibilizar no portal chamado Mundo Oi. Com este ciclo fechado e ajustado, a oferta surgiu nos pontos de venda com o preço para o consumidor final em torno de 20% do valor do aparelho disponível no mercado. Houve um aumento significativo da base de clientes interessados neste novo produto. Poucos meses após a Oi ter saído na frente, todas as outras operadoras começaram a oferecer serviços semelhantes. O fundamento é o mesmo, porém as outras operadoras estão, normalmente, oferecendo este tipo de serviço dentro de um sortimento de Serviços de Valor Agregado.

Há algum tipo de interatividade direta do seu trabalho com outras mídias (como a internet)?
Sim. Todo nosso trabalho é baseado em internet, pois as plataformas que viabilizam o acesso dos consumidores aos conteúdos, são baseadas nela. Além disso, disponibilizamos para nossa audiência sites que dão mais informações sobre os nossos títulos, como o
www.toosexy.com.br.

Neste mercado, em específico, já é possível determinar alguma tendência?
A tendência é que o donwload de vídeo seja sucedido pelo video stream (a transmissão de vídeo em tempo real através de rede e dados, é vídeo continuo no celular sem precisar armazenar). Os novos hand sets (novos aparelhos), virão com a possibilidade de vídeo stream como diferencial. Os mais baratos terão o video download como comodities (do mesmo jeito que há alguns anos atrás, os aparelhos que mandavam torpedo de texto eram “melhores” do que os que não tinham este recurso e hoje todos, do mais barato ao mais caro, têm o recurso de enviar texto. Portanto, este recurso virou padrão ou comodities).

E de uma forma mais ampla, como você enxerga o fenômeno da convergência de mídias a longo prazo? Que tipos de mudanças ela acarretará?
É impossível prever o que acontecerá do ponto de vista cultural, pois o acesso a bens simbólicos crescerá em escala como nunca antes visto. Teremos, por exemplo, um único hand set na palma da mão que terá acesso a tudo.

É possível vislumbrar a hipótese de, no futuro, o processo de convergência se dar de tal forma que se torne impossível fazer uma distinção entre as próprias mídias? Chegará o dia em que não haverá diferença entre uma televisão e um computador, por exemplo?
Sim, não haverá diferença de acesso. Entretanto, acredito que cada mídia sobrevivente terá que se adaptar à oferta descomunal de bens simbólicos.

Por que? Que tipo de diferença de ordem, para usar o termo que o você utilizou, “simbólica”, os bens circulantes deverão apresentar? Com base em quê você sustenta tal previsão? E, para terminar, o que já não é previsão?
Ainda existe uma grande dificuldade de gerar conteúdos fora das grandes estruturas de distribuição, entretanto, o comércio de conteúdo audiovisual nas redes de telefonia móvel mostra claramente que os grandes produtores estão tendendo a perder seu poder hegemônico. Pode-se dizer que está em curso uma “democratização” dos canais de distribuição, que terá seu ápice, certamente, com advento da IPTV - Internet Protocol Television - que, em português, significa algo como “Televisão sobre Protocolo de Internet” ou, simplificando, “TV via Internet”. Trata-se de uma tecnologia que vem sendo desenvolvida há cerca de 10 anos e visa viabilizar a transmissão de conteúdo televisivo via internet. Ao contrário do que se pode imaginar, quem está à frente dos investimentos em pesquisa na área, que já totalizam mais de US$ 500 milhões, não são as empresas de televisão a cabo e sim empresas de telefonia norte-americanas, como a SBC, Comcast e Verizon. Essa última já atua em algumas cidades norte-americanas, transmitindo programação via internet.
As empresas de televisão a cabo, que a priori seriam as mais interessadas na tecnologia, ao que parece estão subestimando o potencial de penetração no mercado destas tecnologias. Elas duvidam da eficiência da tecnologia e dizem que não há nenhuma pressa em introduzir serviços de TV mais interativos do que o vídeo sob demanda e os gravadores digitais de vídeo. Um dos principais argumentos dos que criticam a IPTV para uso de acesso a conteúdo web, é o fato da resolução dos aparelhos de TV comuns não permitir uma boa visualização, o que só é contornado com aparelhos equipados com telas de melhor qualidade. Apesar das resistências de alguns setores da indústria da tecnologia outros estão investindo pesado, acreditando no futuro da IPTV, como Bill Gates, que após perceber que não seria viável entrar sozinho neste mercado, fez parceria entre a Microsoft e as três empresas de telefonia citadas acima, além de acordos semelhantes com empresas de comunicação da Itália, Índia, Espanha e Canadá. O objetivo da gigante americana é estar presente, com seus softwares, num mercado de bilhões de dólares e para o qual convergirão vários meios de comunicação, telefonia, entretenimento, informação, serviços e tudo mais que podemos e poderemos encontrar na internet, sendo posto para a tela da TV, via IP.
O potencial de mercado, cobiçado por Bill Gates, é justificado pelos serviços que são possíveis de serem ofertados via IPTV. Alguns exemplos de uso desta tecnologia são bastante animadores: identificação de chamadas telefônicas, e-mail e correio de voz na tela da televisão, programação de um gravador de vídeo digital via telefone celular, obtenção de dados da internet durante programas (por exemplo: para saber mais, durante uma corrida de Fórmula 1, sobre a carreira de um piloto), acesso aos vídeos de eventos com possibilidade de se ter múltiplos ângulos de câmera, entre outras possibilidades.
Quando se pensa na possibilidade de ter acesso à internet pela TV e todos os serviços e conteúdos nela disponíveis – além de se ter as mesmas facilidades de lazer a que estamos acostumados na "telinha" – temos um acesso facilitado em vários aspectos. A interface do usuário do equipamento é bastante simplificada, pois a maior parte dos serviços disponibilizados é acessada com uso de um controle remoto semelhante ao que temos em casa. O custo do equipamento de acesso (o aparelho de IPTV) é significativamente mais baixo que um computador, girando em torno de US$ 200.00, com controle remoto, teclado e mouse sem fio; Os programas envolvidos são bem mais simples que os encontrados em computadores, tornando o uso mais intuitivo e imediato (não há inicialização do Windows para ligar o aparelho). Estas características aumentam o público potencial de acesso à internet. Boa parte da população que sofre de "exclusão digital" pode passar a usufruir os serviços que a rede propicia, incluindo educação à distância. No Brasil ainda vai demorar para a IPTV se tornar uma realidade. Empresas como Telemar, Brasil Telecom e Telefônica fazem testes com a tecnologia, mas sem qualquer projeção de lançamento do serviço. Mesmo porque, para tal há a necessidade de ser ter uma boa infra-estrutura de conexão de alta velocidade, o que ainda está longe de nossa realidade.
A possibilidade de receber programas favoritos de TV, a qualquer hora, em qualquer lugar, em qualquer aparelho, seja ele televisor, computador, celular, PDA ou monitor em veículos. Tudo isso será possível em menos de cinco anos, com a TV sobre Protocolo IP. Com ela, teremos à disposição milhares de opções de programas, para recepção nos mais diversos ambientes tecnológicos, como a internet, a telefonia fixa, o celular, o DTH (via satélite), o cabo, a rede elétrica (powerline communications) ou as redes sem fio Wi-Fi ou WiMax.
A IPTV foi a grande estrela da NAB-2006, evento realizado em Las Vegas, numa promoção da NAB (National Association of Broadcasters), a Associação Norte-Americana de Radiodifusores. Embora não seja ainda realidade comercial, a televisão sobre protocolo IP já é uma realidade tecnológica.
Como sabemos, a televisão nasceu analógica e em preto-e-branco, ainda em laboratório, em 1926. Como comunicação de massa, no entanto, ela só se tornou realidade a partir do final da Segunda Guerra Mundial, em 1946, nos Estados Unidos e na Europa. E chegou ao Brasil apenas quatro anos depois de sua introdução nos Estados Unidos, em 1950. No mundo, as transmissões comerciais em cores só aconteceram nos anos 1960. E no Brasil em 1972. A digitalização começou no final da década de 1990. Com a ascensão da internet, o protocolo IP acabou se transformando numa espécie de padrão mundial de fato.
Como subproduto da internet, a IPTV integra o conjunto das redes de nova geração, conhecidas como NGN (New Generation Networks), que são redes IP de banda larga. Desde 1991, o mundo começou a especular sobre a possibilidade de criação de uma TV com essas características, com base nos padrões da internet.
Uma coisa é certa, com a chegada da nova televisão, o ambiente de comunicação eletrônica de massa tende a se tornar ainda mais competitivo e diversificado, possibilitando a entrada de novos fornecedores de conteúdo, de empresas de informação e de operadoras de telecomunicações. No Brasil, por questões de regulamentação e de conflitos de interesses, a polêmica já está instaurada em todas as instâncias da indústria do audiovisual.